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Paul Seixas vence Il Lombardia 2026 e se torna o mais jovem campeão da história do Monumento

Com 20 anos e a cabeça fria de quem já não tem nada a provar a ninguém nesta temporada, Paul Seixas atravessou a linha de chegada em Como com 48 segundos de vantagem sobre Enric Mas e entrou para a história do ciclismo. O francês da Decathlon CMA CGM é o campeão mais jovem já registrado em Il Lombardia — a Corrida das Folhas Mortas, realizada neste sábado, 10 de outubro de 2026, no percurso clássico de Bergamo a Como, com 239,6 quilômetros de uma das estradas mais belas e brutais do calendário.

Mas a corrida também teve despedidas. Bauke Mollema completou seu último grande em 18 anos de carreira profissional e foi honrado com guarda de honra, medalha e placa no evento. E o pelotão chegou a Como sabendo que essa página virou para sempre.

A corrida: como Il Lombardia 2026 foi disputada km a km

O roteiro clássico de Bergamo a Como exigiu desde cedo dos 174 ciclistas inscritos. A fuga do dia se formou com 14 corredores nos primeiros quilômetros — um grupo variado, com representação de equipes menores e de corredores sem líderes de dia definidos. Ben O’Connor foi um dos nomes de peso que mostrou atividade na Ghisallo, o ascenso místico que coroa o Lago de Como antes da última parte da corrida.

A fuga foi neutralizada progressivamente. O último escapista a ser reabsorvido pelo pelotão reduzido foi Michael Leonard, da EF Education-EasyPost, já nos quilômetros finais da subida ao Civiglio. Com a estrada se estreitando e o grupo principal condensado nos 30 corredores mais fortes do dia, começou o xadrez que definiria o campeão.

Matteo Jorgenson tentou a primeira escapada de peso após o trecho de Barré, com Simon Simmons, Brandon McNulty e Christian Scaroni encostando. O grupo de favoritos não piscou: todos foram buscados e devolvidos ao bolso antes da entrada na sequência final de escaladas. João Almeida e Aleksandr Vlasov funcionaram como motoristas para seus líderes. Nicolas Prodhomme trabalhou silenciosamente para Seixas, deixando o jovem francês com energia poupada enquanto outros já haviam gasto fichas.

A escalada ao San Fermo della Battaglia — 2,8 km a 6,9%, posicionada a cerca de 8 quilômetros da linha de chegada — foi o funil que separou os bons dos extraordinários. Na primeira passagem pela subida, Primož Roglič acusou os golpes e foi descartado. Matteo Jorgenson seguiu o mesmo caminho. Lorenzo Martinez, que tinha mostrado presença nos quilômetros anteriores, também ficou para trás.

O grupo líder chegou ao Civiglio — a penúltima subida, a que decide — com pouco mais de dez corredores. Foi ali que Seixas decidiu que não esperaria mais.

O ataque na Civiglio: 18 km de sofrimento solitário

A 18 quilômetros do final, Paul Seixas saiu do banco de trás e acelerou. Não foi um sprint curto, nem uma aceleração de teste. Foi um aumento de ritmo contínuo, metódico e implacável — o tipo de esforço que força os concorrentes a uma decisão binária imediata: ir ou deixar.

Remco Evenepoel foi o primeiro a tentar seguir. Alfonso Dlamini Del Toro, jovem revelação da temporada, se pendurou brevemente. Tom Pidcock, que havia marcado Seixas de perto durante grande parte da subida, levou alguns pedaladas a mais para entender que o ritmo era inalcançável. Giulio Ciccone tentou na sequência. Mas cada um foi sendo deixado para trás, um a um, como contas que caem de um colar.

No cume da Civiglio, Seixas tinha cerca de 30 segundos sobre os perseguidores. A descida em direção a Como, rápida e técnica, não foi usada pelos rivais para reorganizar a caça. O pelotão já havia aceitado que o francês não seria alcançado.

No San Fermo final, o penúltimo exame antes da chegada, Seixas chegou com 35 segundos. Saiu com 50. A corrida estava encerrada antes da linha.

Tom Pidcock, sempre direto em suas avaliações, resumiu o sentimento no pelotão de uma forma que diz tudo: “I don’t think he really attacked” — ele não achava que havia sido um ataque no sentido convencional. Foi um ritmo. Um ritmo que ninguém mais conseguia acompanhar.

Enric Mas salvou o segundo lugar com uma arrancada sobre Giulio Ciccone na última passagem pela Civiglio — um sprint de perseguidores que rendeu ao espanhol o pódio, mas que deixou escancarado o tamanho da vantagem que Seixas construíra.

Resultado completo: top-10 de Il Lombardia 2026

Pos.AtletaEquipeTempo
1Paul Seixas (FRA)Decathlon CMA CGM5h49’28”
2Enric Mas Nicolau (ESP)Movistar Team+0’48”
3Giulio Ciccone (ITA)Lidl-Trek+1’05”
4Remco Evenepoel (BEL)Red Bull–Bora–Hansgrohe+1’20”
5Brandon McNulty (USA)UAE Team Emirates–XRG+1’20”
6Tom Pidcock (GBR)Pinarello–Q36.5+1’20”
7Pello Bilbao (ESP)Bahrain Victorious+1’20”
8Christian Scaroni (ITA)XDS Astana+1’20”
9Filippo Zana (ITA)Soudal–QuickStep+1’20”
10Mathys Rondel (FRA)Tudor Pro Cycling+1’20”

Quem é Paul Seixas: do júnior ao Monumento em dois anos

Nascido em Lyon em 24 de setembro de 2006, Paul Seixas tem 20 anos recém-completados — a prova desta tarde aconteceu exatamente 16 dias depois de seu aniversário. Mas a trajetória que o levou ao topo de Il Lombardia 2026 não foi construída em semanas. Foi o resultado de uma progressão metódica e impressionante que já vem chamando atenção desde sua fase juvenil.

Em 2024, ainda como júnior, Seixas conquistou o título mundial de contrarrelógio júnior e venceu a Liège-Bastogne-Liège Juniors — dois dos mais cobiçados resultados da categoria etária. Não eram lampejos isolados. Era o sinal de um corredor com capacidade motora e maturidade tática fora do comum para sua idade.

A transição para o pelotão profissional, na Decathlon CMA CGM, foi imediata. Em 2025, venceu o Tour de l’Avenir — o principal palco de revelação do ciclismo de estrada mundial — e terminou Il Lombardia em sétimo lugar. A imprensa especializada não perdeu o dado: ele era o mais jovem ciclista a figurar no top-10 de um Monumento em mais de cem anos de história do esporte.

2026 chegou e Seixas não desacelerou. Antes de outubro, a temporada já incluía: vitória no Tour du Pays Basque, triunfo na La Flèche Wallonne, vitória na Ardèche Classic, segundo lugar na Liège-Bastogne-Liège, quarto no Tour de France e bronze no Campeonato Mundial de Contrarrelógio. Uma temporada que seria considerada completa para qualquer corredor estabelecido. Para Seixas, era apenas o prelúdio.

Com a vitória em Il Lombardia, o francês se torna o mais jovem campeão da história do Monumento lombardo — quebrando um recorde que datava de décadas. E faz isso com a camiseta de uma equipe, a Decathlon CMA CGM, que também conquista aqui sua primeira vitória em um Monumento.

Mollema: a despedida que o ciclismo merecia dar a ele

Bauke Mollema chegou a Como não como favorito, não como nome que movimentava as apostas, mas como um corredor que fez do Il Lombardia uma das provas centrais de sua carreira. O holandês, que soma resultados expressivos no Monumento ao longo de anos, escolheu a corrida como o ponto final de 18 temporadas no pelotão profissional.

O pelotão lhe prestou a homenagem adequada. Uma guarda de honra foi organizada pelos corredores — um gesto raro e significativo no ciclismo, geralmente reservado para despedidas de figuras que transcendem os resultados. Mollema recebeu também uma medalha e uma placa comemorativa da organização, reconhecimento formal de uma carreira que foi muito além dos troféus.

Não há forma de mensurar em segundos e quilômetros o que Mollema representou para o ciclismo holandês e para uma geração de fãs que cresceu vendo um homem competir com honestidade e constância em estradas de todo o mundo. Ele deixa o esporte pela porta que escolheu, no lugar que escolheu. Isso, por si só, já é vitória.

Pello Bilbao, sétimo colocado nesta edição, também encerra sua carreira profissional em 2026. O basco disputou suas últimas corridas com o Bahrain Victorious e se despede de uma trajetória marcada pela regularidade em grandes voltas e em provas de um dia.

Ciccone e a última corrida com a Lidl-Trek

Giulio Ciccone terminou Il Lombardia 2026 em terceiro lugar — um pódio relevante, mas que carrega uma camada extra de significado. Era a última corrida do italiano com a camiseta da Lidl-Trek, equipe com a qual construiu boa parte de sua identidade profissional nos últimos anos.

A saída de Ciccone não é uma aposentadoria. O escalador italiano rescindiu seu contrato com a formação e seguirá carreira em outro time — os detalhes da próxima etapa de sua trajetória devem ser confirmados em breve. Mas Il Lombardia fechou um ciclo.

Há uma ironia agridoce em terminar com pódio um capítulo que se fecha: Ciccone deixa a Lidl-Trek da mesma forma que entrou em muitas corridas ao longo da carreira — brigando até o final, sem dar desconto, mesmo quando o adversário é um jovem de 20 anos que parece pedalar em outro planeta.

Contexto histórico: o que a vitória de Seixas representa

Il Lombardia existe desde 1905. Em mais de um século de história, o Monumento lombardo reuniu os maiores nomes do ciclismo — Fausto Coppi, Eddy Merckx, Bernard Hinault, Gino Bartali, Alejandro Valverde, atacando as mesmas estradas de pedra e floresta que bordejam os lagos da Lombardia italiana.

Paul Seixas, com 20 anos e 16 dias na data da vitória, é agora o mais jovem campeão de um dos Monumentos mais exigentes do calendário UCI. Para entender a dimensão do que isso significa: no ciclismo de estrada contemporâneo, é raro que corredores dessa faixa etária figurem consistentemente no top-20 dos Monumentos — e praticamente sem precedente moderno que um deles vença.

A conquista é ainda mais significativa porque não veio do nada. Seixas é o produto de uma evolução documentada, pública e consistente. Não é uma surpresa do dia — é a confirmação de uma trajetória que o ciclismo acompanhava com atenção desde 2024. O que muda agora é que o debate sobre seu potencial foi encerrado. O que existe é a realidade.

Para a Decathlon CMA CGM, o primeiro Monumento chega em um momento em que a equipe buscava consolidar seu espaço no topo do calendário UCI. Seixas entregou não apenas um resultado: entregou uma narrativa.

O que vem pela frente para Paul Seixas

A temporada de 2026 ainda não acabou para Paul Seixas — dependendo do calendário pessoal e do planejamento da equipe, há corridas no horizonte. Mas o que Il Lombardia fez foi transformar o patamar de expectativas sobre o jovem francês de maneira permanente.

Seixas já venceu clássicas de Ardenas, dominou provas de estágio, foi competitivo no Tour de France e agora conquistou um Monumento. O próximo passo natural na conversa do ciclismo será: ele pode vencer uma Grande Volta? Um Giro? Uma Vuelta? Um Tour?

Aos 20 anos, com o arco-íris do contrarrelógio no armário, a camiseta de vencedor de Il Lombardia dobrada sobre o pódio em Como e uma temporada que acabou sendo um catálogo de troféus, Paul Seixas tem tempo de sobra para responder. E o ciclismo, que tantas vezes erra ao antecipar grandezas que não se concretizam, desta vez parece estar olhando para o ângulo certo.

O pó das estradas da Lombardia vai baixar. As folhas das árvores ao redor do Lago de Como vão cair, como caem todos os outonos. E o nome de Paul Seixas ficará gravado para sempre na história de uma das corridas mais antigas e mais belas do mundo.

Bike Rolê acompanhou Il Lombardia 2026 ao vivo. Resultado apurado com base nas fontes oficiais da UCI e CyclingNews.

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